Aprendizado 3D em Tempos Líquidos
“Em qual site posso estudar para a sua disciplina?”

Esse questionamento dirigido a mim no final da aula inaugural do semestre letivo indicava que algo havia mudado e, até então, eu não havia percebido essa mudança.

Para compreender melhor o cenário de ruptura na chamada educação 4.0, vamos analisar três casos de sucesso. Cingapura, Japão e Estônia são países reconhecidos como modelos de educação, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

No Brasil, o PIB foi, no ano de 2017, de R$ 31 mil per capita, conforme dados da OCDE, enquanto que, na Estônia, é o equivalente a R$ 110 mil. Então é esperado que existam diferenças de investimento em educação, mas, ainda assim, a margem dessas diferenças assustam.

Enquanto por aqui investimos no ensino básico 6,6 mil reais por aluno ao ano, o governo estoniano, por exemplo, aplica o equivalente a 28 mil.

Interessante é que, se comparado com o Brasil esse valor é alto, quando comparado com os outros países europeus, não chega a impressionar. A média da União Europeia é de cerca de R$ 41 mil por aluno ao ano.

Inobstante as diferenças culturais, o sucesso de Estônia, Cingapura e Japão se baseia em, pelo menos, três pilares:

a) valorização social da educação;

b) acesso universal e gratuito;

c) autonomia dos professores e escolas.

O valor social que a educação tem nesses países passa, especialmente, pela valorização da carreira docente. Apenas os melhores alunos recém-graduados nas universidades compõem uma elite pedagógica, que trabalha 9 horas por dia, inclusive com horas extras nos finais de semana.

Em Cingapura, por exemplo, um professor ganha o equivalente a um profissional da indústria ou do setor bancário. A média salarial inicial varia entre 1,6 mil dólares de Cingapura (R$ 4,8 mil) a 3,5 mil (R$ 10,5 mil), além do bônus por desempenho em sala de aula.

Inobstante a disrupção proposta pelo novo modelo mental inaugurado na chamada “Quarta Revolução Industrial” (Século XXI), paradoxalmente, em matéria de educação aqui no Brasil ainda adotamos o modelo da antiga Prússia, de 1830. E o que é pior, se há pouco investimento na educação convencional, a inovação em matéria de educação no país tem investimento ainda menor.

Vivemos, de fato, “tempos líquidos”, como afirmou Zygmunt Bauman. São tantas e tão rápidas as mudanças que o processo de aprendizado nos impõe um choque entre dois tempos absolutamente distintos: a vida 4.0 e a escola do Século XVIII.

Efetivamente, ainda não aprendemos a lidar com tantas informações e transformá-las em conhecimento e, conforme sintetiza o biólogo E. O. Wilson, “estamos nos afogando em informações e famintos por sabedoria”.

E como superar esses paradoxos? Ou como ganhar com eles?

A política de “escolas pensantes, nação aprendiz” – que marcou as reformas estruturais na Educação de Cingapura se baseia na autonomia de alunos e professores, envolvendo a busca por competências extra-curriculares.

A preocupação com o bem estar no aprendizado vem, pouco a pouco, abrindo espaço para uma educação que observa o aluno como parte do processo de aprendizado e não como máquinas, como refere-se Seymor Papert .

Nesse processo de aperfeiçoamento, apesar de todo investimento estatal, a indústria do ensino privado é bastante lucrativa. Conforme reportagem publicada pelo jornal local StraitTimes, chega a movimentar um bilhão de dólares de Cingapura anualmente (R$ 3 bilhões).

As metodologias das melhores experiências de ensino pelo mundo têm apontado para três sentidos ou dimensões essenciais no processo de aprendizado: a visão, a audição e o tato.

Os livros continuam essenciais, mas, respeitadas as individualidades de cada um, é possível sim investir na inovação do aprendizado e desenvolvimento do indivíduo como ser humano. Além disso, a vivência prática do conhecimento tem demonstrado ser tão imprescindível quanto as teorias em que se baseiam.

Essa é uma excelente oportunidade para as edtechs ou edutechs, as startups da educação.

Passado algum tempo, a questão que inaugurou aquele semestre letivo nunca me abandonou. Curiosamente, trouxe com ela muitas outras questões subjacentes, direta e indiretamente relacionadas ao processo cognitivo nesses “tempos líquidos”.

No fatídico episódio, uma negativa simples substituiu, naquele momento, uma resposta insegura e equivocada minha, que, felizmente, ficou apenas no plano mental.

Hoje a modéstia é cada vez maior, mas compreendo um pouco melhor aquela questão que tanto influenciou a decisão de me reinventar como professor.